quinta-feira, 27 de abril de 2017

O LADO ESQUERDO


Definitivamente....

Acordei para o lado esquerdo...

Da cama, da vida, não tenho tempo para tais considerações agora...

Só sei que o despertador não tocou, tive que trocar de saia e de sapatos e quando cheguei à paragem, esbaforida, o autocarro tinha cumprido o horário.

Preparei-me para uma espera de quinze, vinte minutos, mas tive sorte que o Mateus também estivesse atrasado e tivesse metido por um atalho.

Chegamos ao escritório um minuto ou dois depois das nove horas e pensávamos ter escapado às bocas maldosas da Madalena.

Mas esta parece ter um sexto sentido e lá do fundo da sala, lançou um comentário:

" Isto é que são horas? Irresponsáveis!" e se a Cristiana não me tivesse segurado o braço, não sei o que faria.

Para ser franca, não faria nada; engoliria em seco e tentaria passar despercebida.

O que fez com que ficasse furiosa comigo mesmo...

CONTINUA  

segunda-feira, 24 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - O FINAL



Não, não venhas atrás de mim...

Não sei se vou ficar aqui... não tenho a certeza do que vou fazer...

Tenho que o fazer sozinha e, sim, sei que estarás aí para me ajudar se for preciso...

E isso basta-me...

Tenho que deixar que te preocupes contigo, que invistas na tua carreira...

Talvez a Luisa te dê uma nova oportunidade, quem sabe?

Aproveita-a, goza-a... Tem um filho, dois... Vou ser uma tia babada...

Este é o meu momento de repensar, reconsiderar, renovar a minha vida.

Sem apoios... sozinha, numa cidade desconhecida...

E, prometo que não procurarei o seu lado negro.

Miguel, meu irmão, fica bem. 

Vou ter muitas saudades tuas!

Um xi muito apertada da tua irmã maluca.


FIM


sexta-feira, 21 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE III


Nunca o saberei, pois fui cobarde e fugi.

Felizmente, o bar estava cheio e o segurança estava a tentar impedir a entrada de uns idiotas, já muito bebidos.

Ninguém me viu, a não ser aquele sem abrigo que dorme na viela.  E sei que não vai dizer nada; só quer que o deixem em paz.

Não respeitei os limites da velocidade e não sei como consegui chegar a casa, ilesa e sem encontrar um polícia.

Fui buscar uma mala e atirei para lá roupa.  Voltei a sair, mas achei melhor deixar o carro na garagem.

Apanhei um táxi e segui para a estação de comboios.  Fiquei parada no átrio, sem saber muito bem o que fazer.

Ir para onde?  Olhei para o quadro e não consegui decifrar nada. Alguém deu-me um empurrão e perguntou, mal humorado:

" Então? Vai ficar aí parada a noite inteira? " e então, respirei fundo e fui até à bilheteira.

Comprei o bilhete para Madrid.


CONTINUA

terça-feira, 18 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE II



Espero bem que não... Não aguentaria saber que te fiz isso...

Destruir a minha vida? Ah, não te preocupes comigo... 

Tenho que encontrar uma saída e tenho que o fazer sem a tua ajuda.

És um bom irmão; nunca disseste "não" e provoquei-te tantas vezes.

" Roubei-te" a bicicleta, o carro e sempre que bebia demais, telefonava-te e lá aparecias tu.

Indignado, é certo, com vontade de levantar a mão e bater-me, a dizer que era a última vez, mas eu sabia que era treta. Que o farias novamente, as vezes que fosse preciso!

Desta vez, não é um simples telefonema e levar-me inconsciente para a cama.

Eu matei o Telmo! Dei-lhe um soco que lhe tirou o ar, o fez desequilibrar e bater com a cabeça no balcão.

Um acidente? Achas mesmo que a polícia ia acreditar em mim?


CONTINUA


domingo, 16 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE I



Miguel, meu irmão,

Desculpa-me.... 

Sei que fiz asneira mais uma vez e deveria ter ficado para enfrentar as "feras" contigo.

Deixar-te assim tão doente... custou-me imenso, mas sei que me vais perdoar...

À menina tonta que sempre fui e que deveria deixar de ser. 

Apaixono-me sempre pelo tipo errado e o Telmo foi o pior de todos.

Arrogante, egoísta, "negro" como a música que escolhe para a noite.

" Magie Noire"... para quem quer esquecer e esconder-se do Mundo.

Eu nunca gostei das regras do Mundo; lutei contra elas, mas nunca pensei que as ia quebrar desta maneira e destruir-me.

O que me doí é que não sei se te destruí também...


CONTINUA

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - FIM


É o Torcato quem interrompe o silêncio da sala ao avisar de que está alguém à espera do Inspector na sala 4.
“ Quem é?” perguntou Leandro, mas o Torcato abanou a cabeça. 
Tinha perguntado, mas a pessoa insistiu que só falaria com o inspector encarregado do caso.
O homem na sala de interrogatórios estava visivelmente doente. Tinha os olhos inchados, o nariz vermelho e apesar do casaco grosso, tremia. 
O Sargento Bernardes apressou-se a pedir um copo de água e Leandro mandou-o sentar-se.
“ Sou o inspector Leandro Marques e este é o Sargento Bernardes. O senhor é?”
“ Miguel... Miguel Fontes.” respondeu e teve de imediato um ataque de tosse. 
O Sargento deu-lhe o copo de água e Leandro esperou até que ele o bebesse.
“ Porque é que veio, Snr Miguel Fontes? O senhor está muito doente e podiamos interrogá-lo mais tarde.” explicou o inspector.
“ Mas eu tinha que vir. Eu tinha que lhe dizer...” e tossiu novamente. Meteu as mãos nos bolsos à procura de um lenço, mas um novo ataque de tosse impediu-o.
“ Chame o INEM!” ordenou o Leandro ao Bernardes “ Este senhor tem que ir de imediato para o Hospital.” continuou ao ver que Miguel tinha dificuldade em respirar.
Miguel Fontes abanou a cabeça e estendeu a mão por cima da mesa.
“ O senhor não sabe o que eu fiz!” sussurrou “ Fui eu... fui eu quem matou o Telmo!” e desmaiou.
“ Este senhor desmaiou! Onde está a ambulância?” gritou Leandro.
Bernardes entrou novamente na sala e com um “Raios” entre dentes, ajudou o inspector a pôr o homem numa posição mais confortável.
Um outro polícia entrou com um cobertor e cobriram o dono do bar que continuava sem dar acordo de si. O INEM chegou entretanto, para grande alívio de Leandro e meia hora depois, Miguel Fontes estava a caminho do Hospital.
“ Ele disse alguma coisa?” perguntou Bernardes quando a situação acalmou.
“ Que foi ele quem matou o DJ.” retorquiu Leandro “Mas porquê? E como se está gravemente doente?”
Ninguém lhe respondeu, pois estavam tão perdidos como o Inspector. 
Excepto o Tavares que apareceu, sabe-se lá donde, todo excitado.
“ Sabem com quem esse tal DJ andava?” perguntou e fez uma pausa para criar impacto.
Mas o olhar severo do Inspector fez com que mudasse de ideias e anunciou:
" A irmã do Miguel Fontes e consta que a separação foi turbulenta."
E todos na sala tiveram a certeza naquele momento de que tinha sido ela a assassinar o DJ Mórbido e o irmão a estava a proteger.

Se é ou não verdade, fica para uma outra história.

FIM


domingo, 9 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE V


Pois! A autópsia é só logo à tarde!” lamentou-se Leandro “ Temos que esperar! Oh, Torcato, volta ao bar e interroga discretamente os comerciantes da zona. Talvez tenham visto qualquer coisa...” e o detective desapareceu de imediato.
O inspector leu os mails, assinou relatórios de casos já concluídos e esperou. Perto do meio dia, o Sargento Bernardes entrou no gabinete com novidades:
O nosso DJ Mórbido chama-se Telmo Roseira, tem 35 anos e é divorciado. Como o Russo disse, não trata nada bem as mulheres; a ex-mulher apresentou queixa contra ele três vezes, a última há cerca de mês e meio. Pelos vistos, o nosso DJ não aceitou muito bem o facto de a mulher ter pedido custódia total dos filhos, um de seis anos e outro de ano e meio. Fez um escândalo à porta do prédio, ameaçou matá-la e chamaram a polícia. Mas não, não tem qualquer ligação com drogas, nem como consumidor. Acho que podemos excluir essa hipótese.” concluiu.
Pois!” repetiu Leandro “ Temos que falar com a ex-mulher. Sabes onde vive?”
" Sim, mandei alguém buscá-la e está na sala de interrogatório." disse o Bernardes, sorridente.
Quando entram na sala, a primeira coisa que Clotilde Roseira perguntou foi:
Aconteceu alguma coisa aos meus filhos???
Não, não. Tenho a certeza de que os seus filhos estão bem. É com o seu ex-marido.” disse Leandro e Clotilde suspirou aliviada.
O que se passa com o Telmo? Se isto é algum esquema da parte dele, está tudo definido pelo Tribunal...” defendeu-se.
Não, o seu ex-marido foi encontrado morto esta madrugada no bar onde costumava tocar.” explicou o Sargento Bernardes “ Sabemos que a Senhora apresentou várias queixas contra ele, que ele ameaçou matá-la...”
E pensa que eu o matei?” interrompeu Clotilde indignada, mas Leandro interveio:
Não, são perguntas de rotina. Como a Senhora esteve casada com ele e apresentou queixas na Polícia, gostaríamos de ter mais detalhes."
Mas Clotilde abanou a cabeça e apenas confirmou o que o Bernardes tinha apurado no Tribunal de Família.
Não, nem sequer sabia que ele trabalhava naquele bar. Só tinha notícias dele através do advogado e pelas piores razões.
Mas, afinal como morreu?” perguntou no fim da entrevista.
Foi encontrado com uma seringa no braço no vestiário do bar onde tocou ontem à noite.” esclareceu o Sargento Bernardes “ Sabe porquê?”
Uma seringa no braço? Pensam que foi overdose? “ espantou-se Clotilde “ Não, não... Ele desprezava esse tipo de coisa... Mas tudo pode acontecer.” suspirou “Já falaram com o Miguel? O Miguel Fontes?”
Miguel Fontes? O proprietário do Bar?“ repetiu o Sargento Bernardes, consultando as notas.
Clotilde olhou-o, incrédula e Leandro suspirou, pensando que o caso era mais complicado do que pensava.
Quando ela saiu, Leandro permaneceu sentado uns minutos e Bernardes não se atreveu a interromper.

CONTINUA

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE IV



O vestiário era uma sala quadrada, com um sofá encostado a uma das paredes. As outras duas tinham cacifos e a quarta tinha um balcão a todo o comprimento. A equipa técnica tinha marcado o local onde estava o corpo e Leandro lembrou-se do que a gerente tinha dito sobre isso.
... encostado à parede...” Como, se havia ali aquele balcão e aparentemente o corpo não tinha qualquer golpe e não havia ali vestígios de sangue?
Marcas de arrastamento? “ perguntou ao técnico, mas este abanou a cabeça e continuou a fotografar.
Leandro ficou pensativo uns minutos e resolveu ir directamente até ao Instituto de Medecina Legal. Talvez já lhe pudessem dar alguns pormenores, mas a médica-legista riu-se:
Oh, Inspector Leandro, acabo de receber o corpo. Só lá para o fim da manhã, princípio da tarde... O Senhor está sempre com muita pressa!” queixou-se.
Há qualquer coisa estranha nisto!” justificou-se Leandro, mas a médica não ficou convencida.
Há sempre qualquer coisa estranha nos seus casos, Inspector!” argumentou.
Entreguem a roupa à equipa técnica, ok?” recomendou Leandro e a médica fez um gesto exasperado:
Senhor Inspector, sabemos muito bem qual é o protocolo!” e saiu da sala.
Leandro respirou fundo para acalmar e saiu para a rua já cheia de gente apressada e de carros.
Quando chegou ao escritório, só lá estava o Torcado que encolheu os ombros à pergunta muda de Leandro. Não, não sabia onde estava o Tavares e muito menos o Bernardes.
O sargento apareceu uns minutos depois e apressou-se a dizer:
Calma, chefe. Já pedi as informações bancárias e os registos telefónicos do bar. E o Tavares está a contactar a empresa de segurança que trata do bar. Vou agora contactar o tal Miguel e marcar uma entrevista para hoje à tarde.” acrescentou.

CONTINUA

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE III



O Sargento Bernardes fechou a porta e disse:
Muito segura de si, não é ? Será que esconde alguma coisa?” falou mais para si do que para o inspector que lhe pediu:
Investiga as finanças do bar; não é ela quem trata da parte administrativa do bar? Vê o que descobres mais sobre ela e o sócio, Miguel... “
Miguel Fontes” terminou o Sargento “ Vai interrogar agora o barman? Ou vai ver o local?” perguntou.
Manda entrar esse tal Russo!” suspirou Leandro.
O barman não tinha mais do que 30 anos. Era franzino; a camisa branca parecia grande demais para ele. Tinha um olhar vivo, observador e a alcunha vinha do cabelo ruivo.
Depois das perguntas rotineiras (idade, anos de trabalho no bar, etc), Leandro pediu:
Já conhecia este Dj Macabro? O que me pode dizer sobre ele?”
De nome. Pessoalmente, só quando começou a actuar cá. Chamou mais gente...” acrescentou o barman.
Novos clientes? O “Mad” Joe referiu-se à música dele como “magie noire”; o que é que ele quis dizer com isso?”
O Russo riu-se e disse: “ De magia, não tinha nada! Era puro teatro; brincava com luzes, por vezes, aparecia vestido de esqueleto e misturava música clássica com a moderna. O pessoal delirava e só fazia disparates...”
Ele conversava com os clientes? O que é que estes diziam dele? “ Leandro consultou as notas e repetiu: “ O “Mad Joe” também disse que o ambiente é diferente nos outros dias. Mais calmo, mais familiar. Concorda com ele?... Vá lá, Russo, você é o barman e as pessoas falam consigo!” insistiu Leandro ao ver que ele hesitava.
É, era muito arrogante e vaidoso. E, se notava que as pessoas não gostavam da música, tratava-as tão mal que algumas só apareciam cá nos dias em que ele não actua. Com as mulheres... era um verdadeiro biltre!” desabafou o Russo.
OK... Sabe se estava metido em drogas?” perguntou Leandro.
Não, não ouvi falar nada. Se houvesse alguma suspeita, creio que o Miguel não o contrataria. “ Russo bocejou e fez a mesma pergunta do “Mad” Joe:
Vai demorar muito, inspector? Tenho um workshop esta tarde e queria dormir um bocado. 
Leandro fechou o bloco de notas, fez sinal ao Sargento e levantou-se.Não, para já é tudo. Deixe os seus contactos com o Sargento; é natural que haja mais perguntas.” e depois de apertar a mão ao barman, saiu para ver o local do crime.

CONTINUA

sábado, 1 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE II



O inspector tossiu e perguntou:
Margarida Nunes, gerente. Há quantos anos trabalha cá?”
Margarida sorriu amavelmente e numa voz baixa, educada respondeu:
Desde que o bar abriu, há 5 anos. Sou responsável pela parte administrativa – contactos com fornecedores, bancos, pessoal, etc. Geralmente, não faço noites, mas ontem, o Miguel, o meu sócio estava doente e pediu-me para vir.”
Tem, portanto uma quota do negócio?” e Margarida confirmou com um aceno. “ Foi a senhora que contratou o Dj? Conhecia-o bem?”
Não, muito mal, poucas vezes falei com ele. Foi o Miguel quem teve a ideia de organizar noites temáticas e encarregou-se de tudo – aluguer de equipamento, contratar cantores, DJ's, etc. Qualquer problema relacionado com esses eventos é o Miguel que resolve. Apenas fiscalizo a papelada!” acrescentou com um sorriso.
Certo, falaremos então com o Miguel. Descreva-me o que se passou ontem.” pediu o inspector.
Cheguei por volta das 23h; o Dj tinha começado o show, mas eu não fiquei a assistir. Fui para o escritório, estive a rever uns relatórios e voltei à sala por volta da uma da manhã. O show tinha terminado e sentei-me na mesa de umas pessoas conhecidas e tomei uma bebida com eles. Eles foram-se embora por volta das duas e meia e eu voltei para o escritório. Continuei a trabalhar até o Joe me chamar e pedir para ligar à polícia.” concluiu.
Viu o corpo? “ e a gerente hesitou antes de responder “ Sim, vi até porque o Russo duvidou do Joe e eu tive que intervir para não haver uma discussão idiota. Por isso, fomos os três até ao vestiário e lá estava ele, encostado à parede, com a manga arregaçada e a seringa presa.”
O vestiário é só o pessoal ou para os clientes também?” interveio Leandro, sem saber muito bem o que pensar deste novo relato muito claro, muito calmo, nada emocional.
É só para o pessoal... Posso fazer-lhe uma pergunta, inspector?... Vamos ter que fechar o bar por muitos dias? É que se factura bastante ao fim de semana...” observou Margarida
Leandro olhou-a cautelosamente. A gerente voltou a sorrir, mas Leandro notou que só ficou nos lábios.
Lamento, mas este fim de semana vai ficar fechado. Depois avisamos quando podem voltar a abrir. Obrigada; deixe o seu contacto com o meu sargento. Podemos ter mais perguntas para si.” repetiu Leandro, cansado de repente.
Margarida levantou-se e saiu tão discreta como entrara.

CONTINUA