quarta-feira, 24 de maio de 2017

ESTRANHO - PARTE V


Entretanto, o Torcato tentou contactar um colega nos Narcóticos e o Bernardes consultou casos antigos para tentar descobrir um desconhecido sem a mão direita.

O telemóvel do Bernardes tocou e era uma patrulha que tinha visto um carro suspeito em frente a uma casa em ruínas.

Como a casa ficava numa rua transversal ao Jardim, acharam melhor avisar o Departamento.

" Fiquem aí até chegarmos."  instruiu o Bernardes que fez sinal ao Torcato que se levantou de imediato.

Os dois seguiram à velocidade máxima permitida e dez minutos depois, examinavam o carro, um Citroen vermelho.

O Torcato verificou a matrícula enquanto o Bernardes abriu a porta da frente que não estava trancada.

Viu logo manchas suspeitas no lugar do condutor e no banco traseiro. Resolveu abrir a mala do carro e recuou com o cheiro nauseabundo.

Lá dentro, estava um corpo, sem a mão direita, reparou de imediato Bernardes que pediu ao polícia para chamar o médico patologista e a equipa forense.

" O carro é de Jorge Viriato, dito "Bicudo" e corresponde à descrição que nos deram ontem. Tem cadastro por posse de droga, mas fez serviço comunitário. Nunca esteve preso!" esclareceu o Torcato. " Ups! Será este? "

" Não sei." admitiu Bernardes " Vamos dar uma volta pela casa. Pode ser que se encontre alguma coisa que explique o que se passou aqui."


CONTINUA




segunda-feira, 22 de maio de 2017

ESTRANHO - PARTE IV


Satisfeito, o Bernardes fez o relatório preliminar e no fim do turno, saiu sem informar o Meireles.

No dia seguinte, o médico legista apenas confirmou que estava à espera dos resultados das impressões digitais e do teste de ADN.

Sim, era a mão de um rapaz jovem; não teria mais de vinte, vinte e dois anos. Os dedos tinham sido partidos com um objecto de madeira, talvez um bastão e sim, o corte tinha sido feito post-mortem.

Não, não podia adiantar mais; o Bernardes já sabia que ele não gostava de especular.

" Bolas! Espero que o Torcato e o Tavares tenham descoberto qualquer coisa; caso contrário, terei que arquivar o caso..." resmungou para consigo o Sargento.

Mas o Torcato e o Tavares tinham algumas coisas para contar. A "família" não os tinha acolhido calorosamente, mas depois de assegurarem não serem dos Narcóticos, lá tinham confessado que o " Bicudo" não aparecia no local há alguns dias.

" E quem é o Bicudo?" perguntou o Torcato e o que dava pelo nome de " Bigodes" explicou que o " Bicudo" era um "gajo" com dinheiro que, de vez em quando, lhes pagava a " festa".

" Não sabem o nome dele?" inquiriu o Bernardes e o Tavares riu-se, acenando-lhe um papel.

" Não, mas lembram-se do carro e da matrícula!" exclamou e, vendo o olhar carregado do Sargento, acrescentou " Vou tentar descobrir detalhes."

CONTINUA

sábado, 20 de maio de 2017

ESTRANHO - PARTE III


" Mas o que é isto? Insubordinação? Onde é que estiverem? " perguntou o Meireles.

" Recebemos uma chamada sobre um objecto estranho no Jardim da Praça... " explicou o Bernardes.

" Que objecto estranho? " interrompeu de imediato o inspector " Uma bola de uma criança? " e riu-se.

" Não, por acaso, foi uma mão humana. Já está com o médico legista; devo ter mais detalhes amanhã." continuou o Sargento, calmamente.

" Oh, não seja ridículo! Nem pense que vai perder tempo com isso." desvalorizou o Meireles.

" Não concordo consigo!" disse uma voz por trás do Meireles que se virou rapidamente, pronto a enfrentar quem o ousava desafiar em frente dos homens.

Corou violentamente quando viu que era o Comandante.

" Peço imenso desculpa... " mas o Comandante nem o quis ouvir, pois estava mais interessado em saber o que o Bernardes estava a planear fazer.

".... por isso, esta noite, o Torcato vai falar com a "família" que frequenta o jardim à noite para saber se notaram alguma coisa estranha... " concluiu o Bernardes.

" Perfeito! Fica responsável pela investigação. Mantenha-me informado." pediu o Comandante.

O Meireles nem se atreveu a falar.

CONTINUA

quinta-feira, 18 de maio de 2017

ESTRANHO - PARTE II


" Então, o que é? " perguntou o Torcato ao técnico forense " É um esqueleto de um animal?"

Mas o técnico abanou a cabeça: " Não, é uma mão humana. Os dedos estão partidos e o corte foi ao nível do pulso." concluiu.

" O resto do corpo estará por aqui? " questionou o Bernardes e o Torcato olhou em volta.

" Vamos escavar o jardim? " sugeriu e o Bernardes respondeu:

" A primeira coisa a fazer é falar com quem frequenta o jardim à noite, saber se há alguém que não tem aparecido... Depois, teremos que ver aquelas casas abandonadas..." 

" Ok, eu e o Tavares podemos vir cá esta noite e falar com a "família"." anuiu o detective, ligando o telemóvel.

Bernardes ligou para o departamento e pediu uma equipa de técnicos para fazerem uma busca nas casas abandonadas.

Depois deu uma volta pelo jardim, mas não viu nada de suspeito.

De quem era a mão? Luta entre gangues? Perseguição de drogados? Extorsão?

" Meu Deus!" exclamou " Pareço o Inspector Leandro!"

" Já pensaste no que vais dizer ao Meireles?" interrompeu o Torcato, trocista.

E o Meireles estava à espera deles quando entraram no gabinete.


CONTINUA

terça-feira, 16 de maio de 2017

ESTRANHO


O Sargento Bernardes estava aborrecido...

Melhor dizendo, "chateado", mas segundo o Inspector Meireles, o inspector interino, essa palavra não existe no vocabulário da policia.

" Bolas!" pensa o Sargento " Porque raio havia do Inspector Leandro adoecer agora?"

Não que Leandro fosse para brincadeiras.... Não, exigia respeito, dedicação e rigor...

Mas tratava os subordinados de igual para igual e todos apreciavam isso.

Por isso, quando o Torcato lhe falou da chamada estranha que a central tinha recebido, o Bernardes não hesitou.

" Vamos lá ver o que se passa!" e pegou no casaco.

" Se calhar, é o esqueleto de um cão!" contrariou o Torcato.

" Quero lá saber!" disse o Sargento e abriu a porta do gabinete.

O Meireles estava numa reunião e por isso, os dois atravessaram o átrio calmamente, desceram até à garagem e requisitaram um carro.

Cinco minutos, seguiam para a Praça da República onde os aguardava um grupo de curiosos.


CONTINUA

sábado, 13 de maio de 2017

A DISCUSSÃO - O FIM


A peça continuava sem aparecer no final do expediente.

A Sofia tinha contactado a UPS e estes pediram imensa desculpa pelo atraso. 

A razão era simples: tinha havido um acidente de viação e o estafeta tinha alterado a rota.

De qualquer maneira, seria entregue naquele dia.  

Apesar de terem na portaria um segurança que receberia a peça, o Fontes decidiu ficar mais algum tempo.

O Arnaldo até sugeriu, malicioso: " Um dia destes, ainda trás uma cama e dorme aqui..."

Todos se riram e a peça, agora designada " a perdição do Fontes" virou objecto de piadas bem-humoradas.

No dia seguinte, o segurança confirmou a recepção da peça, ter entregue ao Fontes, mas não tinha visto este sair.   

" Talvez saísse enquanto estava a fazer a minha ronda." admitiu, o que originou mais uma série de piadas.

De repente, ouviu-se um grito e os passos apressados de alguém a subir a escada que ligava os gabinetes ao armazém.
 
O Arnaldo apareceu no patamar, muito agitado e gritou:

" Alguém chame o 112... O Fontes deve ter tido um ataque, está estendido no meio do chão e não responde.... Corre... Anda lá!" disse à Sofia.

Enquanto a Sofia telefonava, os outros desceram até ao armazém.

O Fontes estava deitado de lado, com uma das mãos segurava uma ferramenta e a outra estava estendida como se quisesse alcançar qualquer coisa.

A Cristina reparou que o telemóvel estava a uns centímetros da mão do Fontes.  "Tentou pedir ajuda!" pensou, sentindo-se culpada, não sabendo bem porquê.

Entretanto, o INEM chegou e após um exame preliminar, transportou o Fontes para o hospital.

" Bem... já passou!" disse Sofia " Mas o que lhe deu para ficar aqui toda a noite? "

" Reparar a Máquina!" disse o Arnaldo, mas a Sofia riu-se: " Não brinques!"

Mas o Arnaldo abanou a cabeça e repetiu: " Ele reparou a Máquina! Está pronta para fazer o ensaio que fazemos antes de entregarmos ao cliente."

E ficaram ali todos parados, a olharem uns para os outros, sem fazerem qualquer comentário.   

Talvez porque não havia nada mais a dizer....

FIM 



quinta-feira, 11 de maio de 2017

A DISCUSSÃO - PARTE III


" E o estafeta? Sabe onde está que eu vou ter com ele? " insistiu o Fontes, fazendo com que a Cristina gritasse, exasperada.

" OH, FONTES...." mas o Sr Daniel, que chegou naquele momento, decidiu intervir e numa voz baixa, pediu:

" Cristina, ao meu gabinete, se faz favor." e esperou que ela entrasse para fechar a porta.

O resto do pessoal concentrou-se no trabalho e nem sequer se atreveu a fazer qualquer comentário.

A Cristina reapareceu dez minutos mais tarde, muito corada e muito nervosa. A Sofia ainda pousou a mão no braço dela, mas a Cristina abanou a cabeça.

O Fontes apareceu dali a uns minutos e teve também uma conversa à porta fechada com o Sr Daniel.

Quando pararam para almoço, a peça ainda não tinha aparecido, mas o dia de trabalho ainda não tinha terminado e segundo o site, a entrega seria feita até ao fim do dia.

O Fontes não voltou a falar sobre a peça com a Cristina e esta, quando questionada, apenas respondeu:

" O assunto está entregue ao Sr Daniel." e continuou a trabalhar calmamente. Como se nada tivesse acontecido, mas a Sofia sabia que ela estava furiosa.

CONTINUA

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A DISCUSSÃO - PARTE II


" Aquele Fontes.... " queixou-se a Cristina à saída " Está impossível de aturar.... Sei que já enviaram a peça e até podem entregar na 2ª Feira, mas aquela insistência dele... aborrece-me de tal forma que tenho vontade de o esbofetear..."

A Sofia riu-se e comentou:

" É 6ª Feira! Diverte-te e deixa lá o Fontes entregue à estupidez..." e dando-lhe um abraço rápido, correu para apanhar o autocarro.

Cristina passou um fim de semana agradável em casa de uns amigos e só quando regressou no domingo à noite, é que se lembrou do que a esperava na segunda de manhã.

" Aquele homem vai entrar a matar logo às nove." disse para o marido que encolheu os ombros e a aconselhou a ter calma.

Quando entrou no escritório, a Sofia contou-lhe que o Fontes já lá estava desde as sete da manhã.

" Diz o Arnaldo que não saí da rampa das descargas!" ao que Cristina replicou com azedume:

" Pensa mesmo que o estafeta vai dar prioridade à entrega da nossa mercadoria??? " e abanou a cabeça.

Às onze horas, o telefone interno tocou e a Cristina atendeu, um pouco contrariada, pois estava a preparar um orçamento complicado.

" Então? A peça? Sabe onde está a peça?" exigiu saber o Fontes " Já cá devia estar... "

" Oh, Fontes, deve estar com o estafeta." disse a Cristina, já com a voz alterada.

CONTINUA

sábado, 6 de maio de 2017

A DISCUSSÃO



A discussão surpreendeu-os e todos esticaram o pescoço para ver melhor o que se passava.

Bem, quase todos, porque a Sofia, a recepcionista tentava ao telefone acalmar um cliente nervoso.

Mas, nem os espectadores nem os dois envolvidos na discussão se aperceberam do apelo mudo da recepcionista para que falassem mais baixo.

" Preciso de ter a peça cá na 2ª Feira, sem falta.  Eles prometem entrega em 24 horas!" dizia o Fontes.

" Mas hoje é sexta-feira e mesmo que a enviem hoje, não vai entregar de certeza absoluta a Máquina ao cliente na segunda à tarde." contradizia a Cristina.

" Tem que ser! Em vez de estar aqui a discutir comigo, devia estar a pressionar o fornecedor." sugeriu o Técnico das Reparações.

" Não posso! Já fiz tudo o que tinha a fazer... Não faça este tipo de promessas; já lhe chamaram a atenção para isso, mas o Fontes insiste. ESTOU FARTA!!!" gritava a Cristina.

" E consigo não se pode falar..." mas não continuou, porque a Sofia interrompeu a troca de acusações, perguntando com um sorriso irónico nos lábios: 

" Tenho o Sr Daniel aqui ao telefone a perguntar que gritaria é esta. Que respondo?"

O Fontes apressou-se à descer à oficina.  Quanto à Cristina, decidiu sentar-se no refeitório e beber uma água para acalmar.

Nenhum dos dois queria enfrentar o Sr Daniel. Não seria uma conversa muito agradável.

CONTINUA

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O LADO ESQUERDO - FIM


Felizmente, consegui salvar grande parte do texto e terminei-o mesmo em cima das 18h00.

Ainda estávamos a desligar os computadores e já a Madalena saia, sem um "até amanhã".

" Trata-nos como se fossemos lacaias dela!" disse a Cristiana baixinho.

Eu sorri e apressei-me a sair para a noite ventosa, desagradável.

Não me importei com isso; manteve-me alerta, protegida.

Há dias em que não nos apetece conversar e analisar minuciosamente as atitudes de alguém nocivo pode ser muito negativo.

Por isso, quando cheguei a casa, abri o computador e escrevi tudo o que estava abafado na alma.

Pequenas histórias, poemas sobre sorrisos e alegria... 

Sem palavras tristes e enfadonhas... Sem lágrimas, sem queixas...

Mesmo que haja uma lágrima teimosa no canto do olho... 

Porque este foi o meu momento feliz... 

Apesar de ter acordado no lado esquerdo da vida e  de ter duvidado do meu lugar nela...


FIM

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O LADO ESQUERDO - PARTE II


Como disse, acordei para o lado esquerdo...

E, quando o computador avariou, sem me dar tempo de gravar o texto em que trabalhava, entrei em pânico.

Ouviu-se um riso e a voz estridente da Madalena encheu a sala: "Acudam que ela vai ter um chilique!"

Voltei a não responder... Para quê? 

Há pessoas que vivem com a desgraça dos outros e não entendem as regras de boa educação e respeito.

Ou até sabem quais são, mas acham que só funcionam unilateralmente.

A palavra "unilateral" sugere-me uma ideia para um novo texto. 

Enquanto o informático trabalha no computador, escrevinho umas notas, umas frases chave.

A Madalena passou nesse momento e atirou nova boca: "A mandriar nas horas de expediente?"

E estar horas ao telemóvel é o quê? Porque discutir o corte de cabelo ou as cores da nova estação não é trabalhar....


CONTINUA

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O LADO ESQUERDO


Definitivamente....

Acordei para o lado esquerdo...

Da cama, da vida, não tenho tempo para tais considerações agora...

Só sei que o despertador não tocou, tive que trocar de saia e de sapatos e quando cheguei à paragem, esbaforida, o autocarro tinha cumprido o horário.

Preparei-me para uma espera de quinze, vinte minutos, mas tive sorte que o Mateus também estivesse atrasado e tivesse metido por um atalho.

Chegamos ao escritório um minuto ou dois depois das nove horas e pensávamos ter escapado às bocas maldosas da Madalena.

Mas esta parece ter um sexto sentido e lá do fundo da sala, lançou um comentário:

" Isto é que são horas? Irresponsáveis!" e se a Cristiana não me tivesse segurado o braço, não sei o que faria.

Para ser franca, não faria nada; engoliria em seco e tentaria passar despercebida.

O que fez com que ficasse furiosa comigo mesmo...

CONTINUA  

segunda-feira, 24 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - O FINAL



Não, não venhas atrás de mim...

Não sei se vou ficar aqui... não tenho a certeza do que vou fazer...

Tenho que o fazer sozinha e, sim, sei que estarás aí para me ajudar se for preciso...

E isso basta-me...

Tenho que deixar que te preocupes contigo, que invistas na tua carreira...

Talvez a Luisa te dê uma nova oportunidade, quem sabe?

Aproveita-a, goza-a... Tem um filho, dois... Vou ser uma tia babada...

Este é o meu momento de repensar, reconsiderar, renovar a minha vida.

Sem apoios... sozinha, numa cidade desconhecida...

E, prometo que não procurarei o seu lado negro.

Miguel, meu irmão, fica bem. 

Vou ter muitas saudades tuas!

Um xi muito apertada da tua irmã maluca.


FIM


sexta-feira, 21 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE III


Nunca o saberei, pois fui cobarde e fugi.

Felizmente, o bar estava cheio e o segurança estava a tentar impedir a entrada de uns idiotas, já muito bebidos.

Ninguém me viu, a não ser aquele sem abrigo que dorme na viela.  E sei que não vai dizer nada; só quer que o deixem em paz.

Não respeitei os limites da velocidade e não sei como consegui chegar a casa, ilesa e sem encontrar um polícia.

Fui buscar uma mala e atirei para lá roupa.  Voltei a sair, mas achei melhor deixar o carro na garagem.

Apanhei um táxi e segui para a estação de comboios.  Fiquei parada no átrio, sem saber muito bem o que fazer.

Ir para onde?  Olhei para o quadro e não consegui decifrar nada. Alguém deu-me um empurrão e perguntou, mal humorado:

" Então? Vai ficar aí parada a noite inteira? " e então, respirei fundo e fui até à bilheteira.

Comprei o bilhete para Madrid.


CONTINUA

terça-feira, 18 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE II



Espero bem que não... Não aguentaria saber que te fiz isso...

Destruir a minha vida? Ah, não te preocupes comigo... 

Tenho que encontrar uma saída e tenho que o fazer sem a tua ajuda.

És um bom irmão; nunca disseste "não" e provoquei-te tantas vezes.

" Roubei-te" a bicicleta, o carro e sempre que bebia demais, telefonava-te e lá aparecias tu.

Indignado, é certo, com vontade de levantar a mão e bater-me, a dizer que era a última vez, mas eu sabia que era treta. Que o farias novamente, as vezes que fosse preciso!

Desta vez, não é um simples telefonema e levar-me inconsciente para a cama.

Eu matei o Telmo! Dei-lhe um soco que lhe tirou o ar, o fez desequilibrar e bater com a cabeça no balcão.

Um acidente? Achas mesmo que a polícia ia acreditar em mim?


CONTINUA


domingo, 16 de abril de 2017

"MAGIE NOIRE" - PARTE I



Miguel, meu irmão,

Desculpa-me.... 

Sei que fiz asneira mais uma vez e deveria ter ficado para enfrentar as "feras" contigo.

Deixar-te assim tão doente... custou-me imenso, mas sei que me vais perdoar...

À menina tonta que sempre fui e que deveria deixar de ser. 

Apaixono-me sempre pelo tipo errado e o Telmo foi o pior de todos.

Arrogante, egoísta, "negro" como a música que escolhe para a noite.

" Magie Noire"... para quem quer esquecer e esconder-se do Mundo.

Eu nunca gostei das regras do Mundo; lutei contra elas, mas nunca pensei que as ia quebrar desta maneira e destruir-me.

O que me doí é que não sei se te destruí também...


CONTINUA

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - FIM


É o Torcato quem interrompe o silêncio da sala ao avisar de que está alguém à espera do Inspector na sala 4.
“ Quem é?” perguntou Leandro, mas o Torcato abanou a cabeça. 
Tinha perguntado, mas a pessoa insistiu que só falaria com o inspector encarregado do caso.
O homem na sala de interrogatórios estava visivelmente doente. Tinha os olhos inchados, o nariz vermelho e apesar do casaco grosso, tremia. 
O Sargento Bernardes apressou-se a pedir um copo de água e Leandro mandou-o sentar-se.
“ Sou o inspector Leandro Marques e este é o Sargento Bernardes. O senhor é?”
“ Miguel... Miguel Fontes.” respondeu e teve de imediato um ataque de tosse. 
O Sargento deu-lhe o copo de água e Leandro esperou até que ele o bebesse.
“ Porque é que veio, Snr Miguel Fontes? O senhor está muito doente e podiamos interrogá-lo mais tarde.” explicou o inspector.
“ Mas eu tinha que vir. Eu tinha que lhe dizer...” e tossiu novamente. Meteu as mãos nos bolsos à procura de um lenço, mas um novo ataque de tosse impediu-o.
“ Chame o INEM!” ordenou o Leandro ao Bernardes “ Este senhor tem que ir de imediato para o Hospital.” continuou ao ver que Miguel tinha dificuldade em respirar.
Miguel Fontes abanou a cabeça e estendeu a mão por cima da mesa.
“ O senhor não sabe o que eu fiz!” sussurrou “ Fui eu... fui eu quem matou o Telmo!” e desmaiou.
“ Este senhor desmaiou! Onde está a ambulância?” gritou Leandro.
Bernardes entrou novamente na sala e com um “Raios” entre dentes, ajudou o inspector a pôr o homem numa posição mais confortável.
Um outro polícia entrou com um cobertor e cobriram o dono do bar que continuava sem dar acordo de si. O INEM chegou entretanto, para grande alívio de Leandro e meia hora depois, Miguel Fontes estava a caminho do Hospital.
“ Ele disse alguma coisa?” perguntou Bernardes quando a situação acalmou.
“ Que foi ele quem matou o DJ.” retorquiu Leandro “Mas porquê? E como se está gravemente doente?”
Ninguém lhe respondeu, pois estavam tão perdidos como o Inspector. 
Excepto o Tavares que apareceu, sabe-se lá donde, todo excitado.
“ Sabem com quem esse tal DJ andava?” perguntou e fez uma pausa para criar impacto.
Mas o olhar severo do Inspector fez com que mudasse de ideias e anunciou:
" A irmã do Miguel Fontes e consta que a separação foi turbulenta."
E todos na sala tiveram a certeza naquele momento de que tinha sido ela a assassinar o DJ Mórbido e o irmão a estava a proteger.

Se é ou não verdade, fica para uma outra história.

FIM


domingo, 9 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE V


Pois! A autópsia é só logo à tarde!” lamentou-se Leandro “ Temos que esperar! Oh, Torcato, volta ao bar e interroga discretamente os comerciantes da zona. Talvez tenham visto qualquer coisa...” e o detective desapareceu de imediato.
O inspector leu os mails, assinou relatórios de casos já concluídos e esperou. Perto do meio dia, o Sargento Bernardes entrou no gabinete com novidades:
O nosso DJ Mórbido chama-se Telmo Roseira, tem 35 anos e é divorciado. Como o Russo disse, não trata nada bem as mulheres; a ex-mulher apresentou queixa contra ele três vezes, a última há cerca de mês e meio. Pelos vistos, o nosso DJ não aceitou muito bem o facto de a mulher ter pedido custódia total dos filhos, um de seis anos e outro de ano e meio. Fez um escândalo à porta do prédio, ameaçou matá-la e chamaram a polícia. Mas não, não tem qualquer ligação com drogas, nem como consumidor. Acho que podemos excluir essa hipótese.” concluiu.
Pois!” repetiu Leandro “ Temos que falar com a ex-mulher. Sabes onde vive?”
" Sim, mandei alguém buscá-la e está na sala de interrogatório." disse o Bernardes, sorridente.
Quando entram na sala, a primeira coisa que Clotilde Roseira perguntou foi:
Aconteceu alguma coisa aos meus filhos???
Não, não. Tenho a certeza de que os seus filhos estão bem. É com o seu ex-marido.” disse Leandro e Clotilde suspirou aliviada.
O que se passa com o Telmo? Se isto é algum esquema da parte dele, está tudo definido pelo Tribunal...” defendeu-se.
Não, o seu ex-marido foi encontrado morto esta madrugada no bar onde costumava tocar.” explicou o Sargento Bernardes “ Sabemos que a Senhora apresentou várias queixas contra ele, que ele ameaçou matá-la...”
E pensa que eu o matei?” interrompeu Clotilde indignada, mas Leandro interveio:
Não, são perguntas de rotina. Como a Senhora esteve casada com ele e apresentou queixas na Polícia, gostaríamos de ter mais detalhes."
Mas Clotilde abanou a cabeça e apenas confirmou o que o Bernardes tinha apurado no Tribunal de Família.
Não, nem sequer sabia que ele trabalhava naquele bar. Só tinha notícias dele através do advogado e pelas piores razões.
Mas, afinal como morreu?” perguntou no fim da entrevista.
Foi encontrado com uma seringa no braço no vestiário do bar onde tocou ontem à noite.” esclareceu o Sargento Bernardes “ Sabe porquê?”
Uma seringa no braço? Pensam que foi overdose? “ espantou-se Clotilde “ Não, não... Ele desprezava esse tipo de coisa... Mas tudo pode acontecer.” suspirou “Já falaram com o Miguel? O Miguel Fontes?”
Miguel Fontes? O proprietário do Bar?“ repetiu o Sargento Bernardes, consultando as notas.
Clotilde olhou-o, incrédula e Leandro suspirou, pensando que o caso era mais complicado do que pensava.
Quando ela saiu, Leandro permaneceu sentado uns minutos e Bernardes não se atreveu a interromper.

CONTINUA

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE IV



O vestiário era uma sala quadrada, com um sofá encostado a uma das paredes. As outras duas tinham cacifos e a quarta tinha um balcão a todo o comprimento. A equipa técnica tinha marcado o local onde estava o corpo e Leandro lembrou-se do que a gerente tinha dito sobre isso.
... encostado à parede...” Como, se havia ali aquele balcão e aparentemente o corpo não tinha qualquer golpe e não havia ali vestígios de sangue?
Marcas de arrastamento? “ perguntou ao técnico, mas este abanou a cabeça e continuou a fotografar.
Leandro ficou pensativo uns minutos e resolveu ir directamente até ao Instituto de Medecina Legal. Talvez já lhe pudessem dar alguns pormenores, mas a médica-legista riu-se:
Oh, Inspector Leandro, acabo de receber o corpo. Só lá para o fim da manhã, princípio da tarde... O Senhor está sempre com muita pressa!” queixou-se.
Há qualquer coisa estranha nisto!” justificou-se Leandro, mas a médica não ficou convencida.
Há sempre qualquer coisa estranha nos seus casos, Inspector!” argumentou.
Entreguem a roupa à equipa técnica, ok?” recomendou Leandro e a médica fez um gesto exasperado:
Senhor Inspector, sabemos muito bem qual é o protocolo!” e saiu da sala.
Leandro respirou fundo para acalmar e saiu para a rua já cheia de gente apressada e de carros.
Quando chegou ao escritório, só lá estava o Torcado que encolheu os ombros à pergunta muda de Leandro. Não, não sabia onde estava o Tavares e muito menos o Bernardes.
O sargento apareceu uns minutos depois e apressou-se a dizer:
Calma, chefe. Já pedi as informações bancárias e os registos telefónicos do bar. E o Tavares está a contactar a empresa de segurança que trata do bar. Vou agora contactar o tal Miguel e marcar uma entrevista para hoje à tarde.” acrescentou.

CONTINUA

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE III



O Sargento Bernardes fechou a porta e disse:
Muito segura de si, não é ? Será que esconde alguma coisa?” falou mais para si do que para o inspector que lhe pediu:
Investiga as finanças do bar; não é ela quem trata da parte administrativa do bar? Vê o que descobres mais sobre ela e o sócio, Miguel... “
Miguel Fontes” terminou o Sargento “ Vai interrogar agora o barman? Ou vai ver o local?” perguntou.
Manda entrar esse tal Russo!” suspirou Leandro.
O barman não tinha mais do que 30 anos. Era franzino; a camisa branca parecia grande demais para ele. Tinha um olhar vivo, observador e a alcunha vinha do cabelo ruivo.
Depois das perguntas rotineiras (idade, anos de trabalho no bar, etc), Leandro pediu:
Já conhecia este Dj Macabro? O que me pode dizer sobre ele?”
De nome. Pessoalmente, só quando começou a actuar cá. Chamou mais gente...” acrescentou o barman.
Novos clientes? O “Mad” Joe referiu-se à música dele como “magie noire”; o que é que ele quis dizer com isso?”
O Russo riu-se e disse: “ De magia, não tinha nada! Era puro teatro; brincava com luzes, por vezes, aparecia vestido de esqueleto e misturava música clássica com a moderna. O pessoal delirava e só fazia disparates...”
Ele conversava com os clientes? O que é que estes diziam dele? “ Leandro consultou as notas e repetiu: “ O “Mad Joe” também disse que o ambiente é diferente nos outros dias. Mais calmo, mais familiar. Concorda com ele?... Vá lá, Russo, você é o barman e as pessoas falam consigo!” insistiu Leandro ao ver que ele hesitava.
É, era muito arrogante e vaidoso. E, se notava que as pessoas não gostavam da música, tratava-as tão mal que algumas só apareciam cá nos dias em que ele não actua. Com as mulheres... era um verdadeiro biltre!” desabafou o Russo.
OK... Sabe se estava metido em drogas?” perguntou Leandro.
Não, não ouvi falar nada. Se houvesse alguma suspeita, creio que o Miguel não o contrataria. “ Russo bocejou e fez a mesma pergunta do “Mad” Joe:
Vai demorar muito, inspector? Tenho um workshop esta tarde e queria dormir um bocado. 
Leandro fechou o bloco de notas, fez sinal ao Sargento e levantou-se.Não, para já é tudo. Deixe os seus contactos com o Sargento; é natural que haja mais perguntas.” e depois de apertar a mão ao barman, saiu para ver o local do crime.

CONTINUA

sábado, 1 de abril de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO - PARTE II



O inspector tossiu e perguntou:
Margarida Nunes, gerente. Há quantos anos trabalha cá?”
Margarida sorriu amavelmente e numa voz baixa, educada respondeu:
Desde que o bar abriu, há 5 anos. Sou responsável pela parte administrativa – contactos com fornecedores, bancos, pessoal, etc. Geralmente, não faço noites, mas ontem, o Miguel, o meu sócio estava doente e pediu-me para vir.”
Tem, portanto uma quota do negócio?” e Margarida confirmou com um aceno. “ Foi a senhora que contratou o Dj? Conhecia-o bem?”
Não, muito mal, poucas vezes falei com ele. Foi o Miguel quem teve a ideia de organizar noites temáticas e encarregou-se de tudo – aluguer de equipamento, contratar cantores, DJ's, etc. Qualquer problema relacionado com esses eventos é o Miguel que resolve. Apenas fiscalizo a papelada!” acrescentou com um sorriso.
Certo, falaremos então com o Miguel. Descreva-me o que se passou ontem.” pediu o inspector.
Cheguei por volta das 23h; o Dj tinha começado o show, mas eu não fiquei a assistir. Fui para o escritório, estive a rever uns relatórios e voltei à sala por volta da uma da manhã. O show tinha terminado e sentei-me na mesa de umas pessoas conhecidas e tomei uma bebida com eles. Eles foram-se embora por volta das duas e meia e eu voltei para o escritório. Continuei a trabalhar até o Joe me chamar e pedir para ligar à polícia.” concluiu.
Viu o corpo? “ e a gerente hesitou antes de responder “ Sim, vi até porque o Russo duvidou do Joe e eu tive que intervir para não haver uma discussão idiota. Por isso, fomos os três até ao vestiário e lá estava ele, encostado à parede, com a manga arregaçada e a seringa presa.”
O vestiário é só o pessoal ou para os clientes também?” interveio Leandro, sem saber muito bem o que pensar deste novo relato muito claro, muito calmo, nada emocional.
É só para o pessoal... Posso fazer-lhe uma pergunta, inspector?... Vamos ter que fechar o bar por muitos dias? É que se factura bastante ao fim de semana...” observou Margarida
Leandro olhou-a cautelosamente. A gerente voltou a sorrir, mas Leandro notou que só ficou nos lábios.
Lamento, mas este fim de semana vai ficar fechado. Depois avisamos quando podem voltar a abrir. Obrigada; deixe o seu contacto com o meu sargento. Podemos ter mais perguntas para si.” repetiu Leandro, cansado de repente.
Margarida levantou-se e saiu tão discreta como entrara.

CONTINUA

quinta-feira, 30 de março de 2017

O DJ - O NOVO CASO DO INSPECTOR LEANDRO


O inspector Leandro não entendia a razão das pessoas escolherem alcunhas como “Mad” Bastos, “Red” Zé ou “Top” Ventura.
Mas ali estava ele, naquele bar deserto ainda com vestígios da loucura da noite, sentado em frente de um segurança conhecido como “Mad” Joe.
Mad, hem? Pavio curto é? “ perguntou irónico, mas o segurança esboçou um sorriso e comentou:
Não, chefe. Sou muito calmo! O meu físico impõe respeito!” e riu-se.
Leandro sorriu e concordou com ele. Devia ter mais de um metro e noventa de altura e devia passar horas no ginásio para ter aqueles músculos.
Conte-me o que aconteceu ontem à noite. Quem é este...” parou um momento para consultar o bloco que tinha aberto à frente dele “ DJ Macabro?”
É o responsável pela música às 5ªs Feiras. Escolhe umas músicas estranhas, chama-lhes “magie noire” e o pessoal fica louco. Gritam, dançam e ontem até tive que expulsar uns 4 ou 5, porque umas raparigas queixaram-se que as estavam a assediar...”
Isso é habitual?” interrompeu Leandro e o “Mad” Joe encolheu os ombros, continuando:
Acontece, não vou negar, mas o ambiente é diferente nos outros dias. Mais calmo, mais familiar. Bem, a música começou por volta das 23 horas; durou cerca de hora e meia e vi-o tomar uma bebida com um grupo... Entretanto, chamaram-me e fui lá para fora vigiar a porta de entrada. O bar fechou às cinco da manhã, com os atrasados só às cinco e meia é que tranquei a porta. “
Certo! Além de si, quem ficou cá?” perguntou o inspector.
O barman, Russo e a gerente, Margarida. O Russo estava a preparar as Máquinas de Lavar e a Margarida estava no escritório a fechar a caixa, penso eu. Fiz uma ronda pelas instalações, recuperei copos (as pessoas deixam-nos nos lugares mais incríveis), verifiquei as casas de banho e os vestiários. E foi aí que descobri o corpo. Avisei logo a Margarida e ela chamou a polícia.” Calou-se e endireitou-se na cadeira, olhando Leandro nos olhos.
Não tem nada a esconder; está a dizer a verdade!” pensou Leandro que aclarou a garganta antes de falar.
Mas o “Mad Joe” interrompeu-o: “ Oh, chefe, ainda vai demorar muito? Tomo sempre o pequeno-almoço com a minha filha e depois levo-a à escola.” explicou, ansioso.
Sim, sim. Deixe o seu contacto ao Sargento Bernardes quando sair. Podemos ter outras perguntas para si.” concordou Leandro que fez sinal ao sargento.
 O “Mad” Joe agradeceu-lhe com um aperto de mão e saiu rapidamente do local.
Então, chefe? “ questionou o Sargento Bernardes.
Um relato muito claro, Bernardes e não, não me parece que tenha alguma coisa a ver com isto. Mas nunca se sabe, nunca se sabe!” confessou Leandro. “ Vou falar com a gerente, Margarida, não é?”

É, sim, chefe. Vou buscá-la.” E desapareceu, trazendo minutos depois uma mulher com cerca de 40 anos, vestida discretamente. 
Tinha cabelos ruivos compridos, uma pele muito sardenta e uns olhos verdes que cativaram Leandro de imediato. Sentou-se elegantemente e esperou que Leandro falasse.

CONTINUA

segunda-feira, 27 de março de 2017

JACINTO - O FIM


Nas semanas seguintes, estou tão ocupado que nem penso no Francisco. 

Pobre miúdo! Quem sabe se ele não gostaria de cuidar de uma planta? Ou ajudar-me aqui no jardim?

Naquela manhã, estou a preparar os canteiros para plantar as roseiras quando ouço alguém a abrir o portão.

" Talvez seja um dos filhos da viúva!"  penso e recrimino-me de imediato " Que mania de lhe chamar viúva! D.Sofia! Sofia, Sofia..."

" Bom dia!" e reconheço de imediato a voz da mãe do Francisco. 

Viro-me e lá está ele de calções de ganga e um polo vermelho.

Sorridente, é certo, mas não se precipita ao meu encontro. Segura a mão da mãe e se bem que esteja a olhar para mim, não sei se me reconhece.

" Olá, Francisco! Vieste ver o jardim ou vens ajudar-me?" digo.

Francisco solta a mão da mãe e caminha devagarinho até onde estou. 

Levanta o rosto, olha-me nos olhos, sorri e enfia a mãozinha na minha.

Espantado, procuro o olhar da mãe que me tranquiliza, dizendo:

" Confia em si! Tem um amigo para a vida! Pode ficar aqui uma meia hora, uma hora no máximo? " pede.

" Oh, sim!" concordo e com a mão do Francisco segura na minha, mostro-lhe um monte de pedras com que tenciono marcar o canteiro das ervas aromáticas.

" Agora, vais colocar as pedras aqui." exemplifico e o Francisco pega numa pedra e coloca-a no mesmo alinhamento da outra.

" Isso mesmo!" elogio-o e deixo-o a trabalhar. De vez em quando, espreito para ver como vai o trabalho e vejo que ele está profundamente concentrado.

Quando termina, toca-me no ombro e sem uma palavra, ajoelha-se ao meu lado. Mete as mãozinhas na terra, cobre um bocadinho da raiz da roseira e olha-me.

" Ok, tapa bem, não pode ficar nada à mostra! Muito bem, é isso mesmo!" explico.

Quando a mãe chega, estamos os dois sentados num dos bancos do jardim a beber um sumo que a D Sofia nos trouxe.

Tenho pena de o ver partir, mas de vez em quando, a mãe deixa-o ficar a trabalhar comigo.

Diz que ele está muito feliz  e mais atento. 

" Nem sempre é fácil interessá-los pelas coisas. Vivem num Mundo muito deles. É muito bom vê-lo assim." confessa-me um dia.

Eu também estou feliz; sinto que o Francisco me compreende e que fiz um amigo para a vida...  

Quanto à D Sofia, segui o conselho da minha Mãe e dei-lhe um jardim maravilhoso...

FIM